9 de abr. de 2010

PROVISÕES DE ESPERANÇA: “É preciso saber esperar para não desesperar” [I Sam 13:8]

“ESPERAR NÃO É UM VERBO PASSIVO”
Isaías 40.28-31

Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar o seu entendimento. Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem como asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.

Esta passagem deu nome ao nosso clube. É uma das muitas passagens no AT onde essa misteriosa atividade é mencionada. Há como que uma aura mística em torno desse verbo. Pessoas sugerem que ele significa uma passividade total diante das circunstâncias, uma inatividade que proporciona a Deus espaço para trabalhar. Ainda que este seja um elemento ocasional do “esperar” bíblico, nem de longe esgota esse rico conceito.

O contexto em que essa passagem ocorre ilumina nossa compreensão. Um juízo divino pairava sobre Judá e Jerusalém. Reduzida a um micro-reino, a uma ilha cercada por um mar de inimigos, a outrora poderosa nação escolhida tinha seus dias contados. Ainda que recentemente libertada, de maneira milagrosa, da destruição certa diante dos exércitos assírios (Is 36–37), Jerusalém continuava a ser uma cidade moralmente promíscua, socialmente injusta, e espiritualmente corrupta.

Seu bom rei, Ezequias, ainda que temente a Deus, pensava (como muitos hoje em dia) que religião e política não se misturam, e que mesmo a melhor religião não pode substituir uma boa aliança político-militar. Depois de flertar com o Egito (Is 30), agora buscava a ajuda de Babilônia para garantir sua estabilidade. Orgulhosamente, exibira seus tesouros, numa tentativa tola de impressionar seus novos “aliados” (Is 39).

E a nova que ele queria evitar lhe foi dada, assim mesmo, por Isaías, seu amigo e conselheiro. Pelo fato de você ter confiado em Babilônia, e não no Senhor, os tesouros que Deus lhe deu acabarão nos palácios de Babilônia. Há aí uma ironia que não podemos nos dar ao luxo de ignorar. Tudo que temos pertence a Deus, e Ele prefere entregá-lo na mão de nossos inimigos a permitir que nós confiemos (i.e., esperemos) nos tesouros e não no Deus que no-los concedeu.

Assim, Deus anuncia o castigo, mas nem bem as duras palavras do capítulo 39 caíram nos ouvidos do povo, o Senhor já anunciava que com o castigo viria a restauração (Is 40.1-12). É nesse contexto que surge a idéia de esperar no Senhor – enquanto o castigo não chega, esperar significa obedecer mesmo que à nossa volta todos se entreguem à desobediência, ainda que a impureza, a violência, e a ética da conveniência imperem, ainda que todos digam que a obediência não compensa pois não haverá castigo. Enquanto a restauração não surge, esperar significa obedecer e confiar mesmo que à nossa volta todos já tenham desesperado da moral, do significado da vida, e vivam apenas para o parco prazer que os anestesiantes e os estimulantes possam oferecer, como se não houvesse amanhã.

É muito pouco provável que você e eu experimentemos as agruras de conquista de nossa terra, destruição de nossas casas, e exílio humilhante como escravos em terra estranha. Será que nossa obediência sobreviveria a tais circunstâncias? Trazendo para mais perto de nós essa pergunta, será que sobreviveria à perda dos recursos arduamente conquistados? Sobreviveria à perda da reputação perseverantemente construída ao longo de décadas de trabalho honesto? Sobreviveria ao abandono ingrato de filhos e familiares numa hora de revés ou necessidade?

Nas Escrituras, esperar é uma palavra que está sempre acompanhada de “ainda que” (confira Hc 3.17-19). Ela envolve obediência e tranqüilidade diante da tragédia e do desastre, diante de uma solidão ética que poderia nos tornar mais um dos muitos camaleões éticos que insistem em se chamar de crentes, mas glorificam o “jeitinho brasileiro” em lugar dos riscos da fidelidade, e (deliberadamente parodiando Paulo), “ser tudo para todos, para de todos os meios, ganhar algum” (o singular também é deliberado).

Esperar é obedecer confiando que a força que é inata a Deus nos será comunicada por Ele. Que andaremos ou correremos (veja quantos verbos de ação) com uma força sobrenatural quando nossa força humana se tiver esgotado, quando nos restar apenas a vontade de obedecer ou confiar. Penso que as palavras do Salmo 130 foram escritas nesse contexto. Termino com elas esta meditação. “Espere Israel no Senhor, pois no Senhor há misericórdia (amor leal); nEle, há copiosa redenção” (Sl 130.7).

Carlos Osvaldo Cardoso Pinto

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